O bar

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Todas as noites a caminho da minha casa passo na porta de um bar de esquina que fica em frente ao restaurante que gosto de jantar. De umas semanas para cá, comecei a observar um senhor sentado na primeira mesa que fica na calçada. Ele sempre está lá, às vezes de preto ou de branco. Notei que ele não bebe e que sempre tem uma garrafa de água ao seu lado e um copo. Nunca está acompanhado e parece que não espera alguém. Ele já me cumprimentou uma ou duas vezes e eu o respondi “Boa noite para o senhor também”.

Então um dia parei para comprar um refrigerante e fiquei olhando para ele. Seus olhos estavam vidrados do outro lado da rua. Parei para pensar o que de tão interessante ele observava e com tanta atenção. Então pensei que poderia ser o restaurante ou alguém que trabalha lá. Lembro-me de ter visto uma senhora que deve ter mais ou menos a idade dele trabalhando na recepção. Seria ela a quem ele tanto olhava?

Paguei a minha bebida. Estava quase na outra esquina e voltei. Precisava perguntar aquele senhor o porquê daquele olhar tão sincero para o outro lado. Quando ele me viu, já puxou a cadeira e deu um breve sorriso. Então eu sentei e ele voltou a olhar o restaurante. Ele bebeu um pouco de água e começou a falar.

– Você quer saber o porquê de eu estar aqui no mesmo bar e na mesma cadeira todas as noites, não é?

Fiquei um pouco surpresa com isso, mas assenti.

– Olha lá.

Olhei para o outro lado e vi uma senhora trajando um vestido azul e um senhor com terno, provavelmente seu marido. Estavam rindo e de mãos dadas, então ela parou e o beijou. Em seguida entraram no carro e foram embora. Quando voltei o olhar para o senhor, percebi que ele olhou até o carro sumir de vista. Engoli seco. Ele voltou a falar.

– Ela é linda, não é? Viu o vestido que ela estava usando? Deve ter sido presente de seu marido. E se é isso que pensou, sim eu venho aqui todas as noites olhar para ela.

Antes que eu perguntasse algo, continuou.

– Nós tínhamos vinte e dois anos quando ela cansou de me esperar. Ela sempre me dizia que um dia ia esquecer, que não me ligaria mais e que um dia alguém ia amar ela, como ela me amava. Eu nunca acreditava, porque depois ela sempre voltava para mim. Nós não namorávamos, mas sempre estávamos juntos. Eu apreciava a companhia dela, eu apreciava o som da sua voz, eu adorava sentir o seu perfume e quando não nos falávamos eu sentia a sua falta. E ela também. Mas, a diferença é que ela conseguia dizer. Lembro-me como se fosse ontem a primeira vez que ela disse que me amava. Estávamos no carro, então ela me beijou e olhando nos meus olhos disse “eu te amo”. E eu? O que eu disse foi que não sabia o que dizer. Durante oito anos ela me esperou, ela esperou ouvir um “sinto a sua falta” ou um “queria te ver”. Eu nunca disse por que o meu orgulho me cegava. Até que um dia apareceu o tal alguém que ela havia falado. O alguém que a amaria assim como ela me amava. Que não seria covarde e que assumiria isso. E como ela já havia avisado, parou de me ligar. Não nos vimos mais. Há exatos trinta anos, eu estava sentado aqui com uns amigos, bebendo quando vi o casal entrar naquele restaurante. Sentaram bem ali na janela e eu fiquei olhando. Eu o vi ajoelhar e lhe entregar o anel. Eu a vi chorar de felicidade porque finalmente alguém foi reciproco com ela. Fiquei sentado até eles irem embora. Ela trajando um vestido azul e ele terno. Entraram no carro e fora embora, assim como fizeram hoje. Naquele dia eu vi que a havia perdido. Um ano depois eles casaram. E então sempre comemoram o aniversario de casamento ali. Às vezes eles vêm só para um jantar romântico. Como eu não sei quando isso vai acontecer, venho todos os dias depois do meu expediente e sento aqui esperando a sorte ter pena de mim. Faz trinta anos que eles estão casados e trinta anos que sento aqui. Sabe garota, fui cegado pelo meu orgulho e hoje a culpa é a minha companhia. Fico aqui vendo ela olhar seu marido, assim como ela me olhava. Nunca vi um olhar mais sincero do que aquele e tão apaixonado. E eu o perdi. E ela nunca vai saber o quanto a amei e o quanto a amo, o quanto eu desejo ela do meu lado todos os dias, o quanto queria que fosse eu ali com ela. – ele respirou fundo e virou para mim – Posso lhe dar um conselho? Não deixe seu orgulho falar mais alto, lute contra ele e faça o possível para vencer. Porque se não você pode perder o amor da sua vida e acabar sentado sozinho numa mesa de um bar.

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